Um estudo recente na revista Nature Medicine revela que o aceleramento do envelhecimento cerebral pode ser influenciado por fatores externos como instabilidade política, poluição do ar e elevada desigualdade social. A pesquisa, que contou com a participação de três cientistas brasileiros financiados pelo Instituto Serrapilheira, analisou dados de mais de 160 mil pessoas em 40 países, incluindo o Brasil.
O estudo utilizou inteligência artificial e modelagem epidemiológica para examinar as “diferenças de idade biocomportamentais (BBAGs)”, uma métrica que compara a idade biológica de uma pessoa com sua idade cronológica, levando em conta variáveis de saúde, cognição e educação, bem como riscos como condições cardiometabólicas e deficiências sensoriais.
Os resultados da pesquisa desafiam a visão tradicional que considera o envelhecimento como resultado apenas de fatores genéticos e de estilo de vida. Segundo o professor Eduardo Zimmer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), “a localização geográfica de uma pessoa pode acelerar seu processo de envelhecimento, intensificando o risco de declínio cognitivo e funcional, especialmente em países com altos índices de desigualdade como o Brasil”.
A pesquisa associou o envelhecimento precoce com uma série de fatores sociais e políticos, incluindo baixa renda, má qualidade do ar, desigualdade de gênero, migração, falta de representação política, limitações à liberdade partidária, restrições ao direito de voto e fragilidade das democracias. Em contextos onde há maior corrupção e menor qualidade democrática, foram observados índices mais elevados de envelhecimento.
A análise indicou também que a confiança nas instituições governamentais está relacionada a uma melhor condição de saúde, enquanto a desconfiança e a polarização política podem aumentar a mortalidade e comprometer as respostas de saúde pública. O estudo revelou que o estresse crônico, declínios cardiovascular e cognitivo são mais pronunciados em ambientes de governança instável.
De acordo com a pesquisa, a velocidade do envelhecimento varia significativamente de acordo com a região geográfica. Países europeus como França, Alemanha e Suíça, bem como nações asiáticas como China e Coreia do Sul, demonstraram um envelhecimento mais lento. Por outro lado, países africanos, incluindo Egito e África do Sul, juntamente com o Brasil, mostraram taxas de envelhecimento mais rápidas.
Em suas conclusões, os cientistas enfatizam a importância de políticas públicas focadas na redução das desigualdades sociais e no desenvolvimento regional, a fim de garantir um envelhecimento populacional mais saudável, conforme apontado por Lucas da Ros, pesquisador da UFRGS e coautor do estudo. As descobertas sublinham que, além de riscos individuais, é crucial abordar as disparidades sociais como parte integral das estratégias de saúde pública.
Desigualdade social acelera envelhecimento, diz estudo internacional
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