Completando uma década, impactos da Usina de Belo Monte reverberam nas comunidades locais
ALTAMIRA, PA – A inauguração da Usina Hidrelétrica de Belo Monte completa dez anos nesta terça-feira, um marco que reverbera profundamente nas comunidades ribeirinhas e indígenas. Élio Alves da Silva, pescador da comunidade de Santo Antônio, em Vitória do Xingu, narra as transformações amargas vividas desde que a proposta de desviar 80% do fluxo do Rio Xingu foi divulgada, perturbando a biodiversidade local e deslocando inúmeras famílias.
O início dos estudos para o aproveitamento hidrelétrico do rio, em meados dos anos 80, introduziu um período de incertezas e mudanças drásticas para os habitantes originais. Segundo Silva, a fauna aquática que sustentou por gerações a pesca local começou a escassear após as explosões e os avanços da construção.
“Chegou ali uma empresa, a Cenec. Eles entraram nas matas, cortaram, abriram caminho com dinamite”, relata Silva, explicando o processo que antecedeu a eventual realocação de 67 famílias, incluindo a sua. “Prometeram uma vila para nós, mas isso nunca aconteceu”, lamenta ele, descrevendo a realidade de sua pequena chácara nos arredores de Altamira, onde vive hoje dependendo de ajuda externa.
Simultaneamente, em Anapu, Sara Lima, também ribeirinha atingida pelas alterações do rio, descreve a perda de segurança alimentar e empobrecimento mesmo permanecendo em seu local de origem. “Antes tínhamos um rio vivo; hoje nos humilhamos por água potável e nos alimentamos de ovo e mortadela”, diz Lima.
Em meio aos relatos, organizações como a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e a Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (Aida) têm se mobilizado. Recentemente, divulgaram uma carta aberta ressaltando as violações contra as comunidades regionais exacerbadas pelas mudanças climáticas e a necessidade de medidas legais eficazes diante dos impactos estruturais do empreendimento.
As celebrações da década de operação da Usina contrastam com as memórias de destruição ambiental e realocação forçada. Enquanto a Norte Energia, empresa administradora, destaca investimentos de mais de R$ 8 bilhões em compensações socioambientais como construção de unidades de saúde e escolas, habitantes como Silva e Lima contestam a adequação e conclusão desses projetos.
Élio Silva e Sara Lima, com suas narrativas de perda e adaptação, simbolizam a voz de muitos outros atingidos pelo avanço de projetos de grande escala na Amazônia, que reclamam não apenas reparação, mas também respeito e reconhecimento. Enquanto isso, o debate sobre o desenvolvimento e seus custos humanos e ambientais continua, denotando um cenário de ganhos contrastantes e muitas perdas irreparáveis.
Fotos de Élio Silva e Sara Lima pela Agência Brasil e Matsi Matxïrï/Divulgação.
Após dez anos, Belo Monte ainda enfrenta críticas sociais e ambientais
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