Cozinha das Caranguejeiras: sabedoria tradicional transforma a ubarana em renda e ação social em Magé
A Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé (ACAMM), localizada na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, tem sido um exemplo notável de como a culinária criativa pode impactar a economia local e promover a inclusão social. O foco dessa transformação é um peixe até então subestimado pelos pescadores da região: a ubarana. Através da Cozinha das Caranguejeiras, as mulheres da associação descobriram maneiras inovadoras de valorizar esse pescado ao utilizá-lo em uma variedade de receitas, como estrogonofe, almôndegas, e coxinhas, entre outros pratos. Essa iniciativa não apenas gerou novas fontes de renda para 15 famílias, mas também proporcionou um espaço de convivência e apoio emocional, onde as participantes compartilham experiências e superam desafios pessoais.
Márcia Regina, uma das fundadoras e atualmente auxiliar geral da Cozinha, destaca a importância da iniciativa: “Além de gerar renda, é uma ação social. Mulheres que, às vezes, enfrentam depressão, encontram na cozinha um lugar de cura e amizade”. A Cozinha foi estabelecida em 2021 após a aprovação de um edital do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), que possibilitou o aluguel de um espaço físico. Desde então, a ACAMM tem ampliado suas atividades, fortalecendo a comunidade e convidando turistas e pesquisadores a conhecerem o trabalho desenvolvido.
Historicamente, a coleta de caranguejos e o consumo de ubarana faz parte da tradição local, onde as mulheres já processavam o pescado, mas a valorização econômica era inexistente. Com foco na preservação ambiental e na educação da comunidade, as iniciativas da ACAMM incluem não apenas a elaboração de pratos pela Cozinha, mas também ações de limpeza e replantio dos manguezais, essenciais para o equilíbrio do ecossistema da Baía de Guanabara.
A bióloga Verônica Souza, do Projeto Andadas Ecológicas, enfatiza que a ubarana, apesar de suas espinhas finas que dificultam o consumo, tem seu valor reavaliado através das novas receitas e preparos criativos das caranguejeiras. O trabalho delas não apenas ressignificou o pescado em termos econômicos, mas também contribuiu para a conscientização sobre a biodiversidade local.
“Antes, a ubarana era apenas um complemento na segurança alimentar da comunidade. Hoje, ela é um produto que gera renda e faz parte da identidade da Cozinha”, destaca Rafael Santos, presidente da ACAMM. O dinamismo na cozinha se reflete em um modelo de turismo comunitário que promove a educação ambiental, com programas que envolvem desde a observação da fauna e flora local até a sensibilização sobre a conservação do manguezal.
O Projeto Andadas Ecológicas, desenvolvido pela ONG Guardiões do Mar e apoiado pela Petrobras, introduziu diversas atividades na região para trazer benefícios diretos às comunidades pesqueiras, inclusive através do Pagamento por Serviços Ambientais. Com a Operação LimpaOca, os pescadores e catadores de caranguejos retiraram mais de 12 mil quilos de resíduos do Rio Suruí e suas margens, destacando o compromisso da ACAMM com a preservação ambiental e o fortalecimento do sustento local.
As ações desenvolvidas pela Cozinha das Caranguejeiras demonstram que, por meio do resgate e valorização de saberes tradicionais, é possível criar alternativas sustentáveis e fortalecer a economia local, ao mesmo tempo em que se promove a inclusão social e a preservação ambiental na região da Baía de Guanabara.
Peixe antes desprezado melhora renda de mulheres da pesca no Rio
Fonte: Agencia Brasil.
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