Cuba Enfrenta Crise Energética Aguda: Relatos de Civis em Havana
Cubanos que residem em Havana compartilham suas preocupações enquanto o país atravessa um de seus momentos mais difíceis, exacerbado pelo recente endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos. A partir do final de janeiro de 2026, a população tem sentido na pele as consequências desse cerco, refletidas no aumento alarmante de apagões, na elevação vertiginosa dos preços de produtos básicos e na queda na oferta de transporte público. A arquiteta Ivón B. Rivas Martinez, 40 anos, e mãe de Robin, de 9, relatou à Agência Brasil que os apagões, antes programados, tornaram-se imprevisíveis, com durações que variam entre 12 horas em dias críticos.
“Antes, havia cerca de quatro horas sem energia por dia, que aumentaram para cinco. Com a agravante da crise, não há mais como planejar. Hoje, por exemplo, houve 12 horas de apagão”, explicou Ivón. A crise, que já era presente nas províncias do interior da ilha, onde os apagões podem durar quase todo o dia, agora se alastrou pela capital. “Minha tia no interior precisava sair cedo todos os dias para garantir o que poderia consumir, já que, se comprasse mais, o alimento deterioraria devido à falta de eletricidade. No interior, quase o dia todo fica sem energia”, completou.
O panorama se torna ainda mais alarmante a partir das ações do governo Trump, que prometeu tarifas a países que vendessem petróleo a Cuba, rotulando a ilha como uma “ameaça peculiar e extraordinária” à segurança dos EUA. Feliz Jorge Thompson Brown, um economista aposentado de 71 anos, descreveu essa situação como a mais desafiadora que Cuba já enfrentou, até mesmo mais crítica que a famosa década de 1990, período em que a ilha enfrentou o colapso do bloco socialista. “A crise energética hoje é muito grave. É o momento mais cruel e severo, tanto material quanto espiritualmente desafiador”, afirma.
Os apagões não apenas impactam a rotina dos cubanos, mas também afetam serviços essenciais. Ivón destacou que a falta de energia compromete o funcionamento de serviços como abastecimento de água e telefonia. “Se você tenta sacar dinheiro no banco e não há eletricidade, os caixas eletrônicos não funcionam. É um ciclo difícil”, detalhou. Nesse contexto, não se pode ignorar o impacto dos preços, que aumentaram drasticamente em ritmo acelerado. Arroz, óleo e carne de frango, itens básicos, tornaram-se ainda mais acessíveis só para poucos.
A crise energética é o reflexo de um sistema em colapso. Com aproximadamente 80% da energia do país gerada por termelétricas movidas a combustíveis, a medida dos EUA limita a capacidade de Cuba de comprar petróleo e agrava ainda mais a situação. O impacto é especialmente sentido no transporte, onde a redução na oferta e o aumento de preços tornaram as viagens cada vez mais difíceis. Ivón observou que as linhas de transporte público agora oferecem apenas uma viagem pela manhã e outra à tarde.
Enquanto isso, o sistema de saúde e o acesso a medicamentos também se deterioraram. “Muitas consultas foram canceladas e apenas o atendimento de emergência é priorizado”, relatou Ivón, mencionando que médicos enfrentam dificuldades de locomoção para atender à população. Mesmo o acesso à educação permanece precário, mas os cubanos tentam manter sua rotina, embora o cenário seja sombrio. Robin, o filho de Ivón, frequenta uma aula de música gratuita que é sustentada pelo governo, uma das poucas ofertas culturais ainda mantidas.
Este fenômeno complexo, que une questões políticas e sociais, ressalta o quanto os cubanos se veem afetados não apenas por questões econômicas mas também por uma situação envolvendo a sua segurança e dignidade. A luta pela sobrevivência diária prevalece em um contexto onde desde antigos sucessos sociais da revolução cubana se tornam cada vez mais difíceis de manter.
Cubanos relatam cotidiano em Havana: “Pior momento que já vivemos”
Fonte: Agencia Brasil.
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