Emergência Climática: Oceanos sob Ameaça e o Ponto de Virada da Governança Marinha
O oceano, um dos nossos recursos naturais mais vitais, enfrenta transformações alarmantes devido à emergência climática. O aquecimento anômalo das águas, o branqueamento massivo de corais, o deslocamento de espécies polares e a queda na reprodução de peixes são apenas alguns dos efeitos devastadores que se acumulam. Estas mudanças já estão provocando impactos profundos nas economias e vidas de bilhões de pessoas, especialmente aquelas que dependem dos recursos marinhos para sua subsistência. Entre os dias 10 e 12 de março, o Rio de Janeiro sedia o 3º Simpósio BBNJ (Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional), que reúne cientistas, políticos e representantes de organismos internacionais para discutir a implementação do Tratado do Alto-Mar, que começou a vigorar em janeiro deste ano.
Até o momento, 86 países, entre eles o Brasil, assinaram o tratado, que estabelece as bases para a proteção da biodiversidade marinha, regulamentação do acesso a recursos genéticos e a necessidade urgente de enfrentar a degradação dos ecossistemas oceânicos. O tratado menciona, em suas diretrizes, a importância de lidar com os efeitos das mudanças climáticas, chamando a atenção para problemas como aquecimento, poluição e acidificação das águas. Para Segen Farid Estefen, diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), embora instituições como o IPCC discutam o clima, raramente colocam o oceano no centro das conversas. “O Tratado do Alto-Mar altera essa dinâmica”, afirma Estefen.
A professora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destaca os riscos sociais associados aos impactos climáticos. A elevação do nível do mar ameaça a vida de mais de um bilhão de pessoas que habitam zonas costeiras, e cerca de três bilhões dependem de frutos do mar como fonte primária de proteína, evidenciando um potencial para crises alimentares. Ela alerta ainda para a possibilidade de deslocamentos populacionais e conflitos em regiões dependentes do oceano, especialmente no Pacífico, na Baía de Bengala e na África Ocidental. Para uma abordagem eficaz e integrada, Rodrigues defende uma conexão mais robusta entre o Tratado do Alto-Mar e a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), apontando que atualmente esses tratados operam de forma paralela.
O pesquisador Juliano Palacios Abrantes, da Universidade da Colúmbia Britânica, também sublinha as complexidades gerenciais em relação à pesca nas águas internacionais. A movimentação dos estoques de peixes, que estão se deslocando das zonas econômicas exclusivas para o alto-mar, não só pode intensificar conflitos entre nações, como já observado com a cavala na Europa, mas também pode exacerbar desigualdades, favorecendo países com maior capacidade pesqueira.
A urgência da situação demanda um fortalecimento das estruturas de governança e uma resposta eficaz e em escala global, refletindo a velocidade e a complexidade das mudanças climáticas que afetam os oceanos. Contudo, os desafios permanecem: como integrar esforços de proteção marinha com as estratégicas de mitigação da mudança climática em uma governança que precisa ser adaptável e responsiva? A constituição de uma governança oceânica mais robusta e coordenada será cada vez mais essencial.
Essas imagens, capturadas por Tânia Rêgo da Agência Brasil, ilustram momentos cruciais da discussão emergente sobre a interação entre a biodiversidade marinha e a mudança climática, destacando a importância do simpósio em relação ao futuro dos oceanos.
Efeitos da emergência climática no oceano preocupam pesquisadores
Fonte: Agencia Brasil.
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