Seca e Desafios Climáticos Afetam Comunidade Quilombola de Nova Esperança no RN
Na comunidade rural quilombola de Nova Esperança, localizada em Baraúna (RN), a realidade das 70 famílias que ali residem é marcada por intensos desafios climáticos. Sueli Bessa, uma agricultora de 39 anos e liderança comunitária, relembra com saudades sua infância, quando o cheiro das goiabas dominava a região. Hoje, a seca frequente compromete a produção não apenas da fruta, mas também de hortaliças essenciais para a subsistência da comunidade. A situação é alarmante: em busca de alternativas, muitos moradores abandonaram a agricultura familiar em favor de empregos nas indústrias urbanas, situadas a mais de 20 quilômetros de distância, em uma estrada péssima e não asfaltada.
A falta de infraestrutura adequada amplifica as dificuldades. A comunidade, que não possui um código de endereço postal, enfrenta o caos após temporais, tornando suas ruas intrafegáveis. O abastecimento de água é irregular, com a população dependendo de um poço artesiano, que se torna insuficiente durante os períodos de seca. Em meio a esse cenário, Sueli se destaca como uma empreendedora, produzindo geleias e compotas para venda local e sonhando em concluir o ensino médio, com o desejo de cursar enfermagem ou direito para fortalecer sua comunidade.
O encontro nacional das mulheres quilombolas, que ocorre até o dia 14 de outubro no Gama (DF), traz à tona essas questões. O evento, que teve a visita do presidente Lula, discute a justiça climática como um tema central. Ao mesmo tempo, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou o livro Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima, que aponta os impactos ambientais sofridos por essas comunidades e as estratégias de resistência e adaptação que vêm sendo desenvolvidas.
A agrônoma Fran Paula, responsável pela pesquisa que embasou o livro, destaca o papel das mulheres como protagonistas nas ações de conservação e resistência às mudanças climáticas. O estudo evidencia que as mulheres são as primeiras a sentir os impactos e as últimas a deixar seus territórios, enfrentando grandes empreendimentos que ameaçam suas culturas e modos de vida.
Entre outros relatos, está a situação da comunidade Mesquita em Goiás, que luta para ver seu território demarcado, e a Devido Espírito Santo, no Espírito Santo, que vive a diminuição da produção de mandioca, essencial para produção do beiju, em função dos efeitos das mudanças climáticas e do uso de agrotóxicos nas redondezas.
Esses relatos representam uma pequena amostra das dificuldades enfrentadas por comunidades quilombolas em todo o Brasil, onde as nuances do racismo ambiental se entrelaçam com a luta por direitos e sustentação. O encontro e o livro são manifestações da resistência dessas mulheres, que buscam não apenas sobreviver, mas também preservar suas identidades e modos de vida em meio a um cenário desafiador.
As imagens que ilustram a matéria são de Lula Marques/Agência Brasil, que captura a essência e os rostos da luta dessas comunidades.
Do marmelo ao beiju, clima ameaça produção em territórios quilombolas
Fonte: Agencia Brasil.
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