O Perigo da Desumanização da Escrita em Tempos de Inteligência Artificial
A prática da escrita, que abrange desde romances e poesias até simples bilhetes, pode estar ameaçada pela ascensão das ferramentas de inteligência artificial (IA). Essa é a preocupação central do escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, que lança seu mais recente livro, “Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs”, em Brasília, no dia 18 de outubro. Rodrigues acredita que a crescente dependência da tecnologia pode inviabilizar o desenvolvimento de habilidades essenciais, como a escrita. Em suas palavras, “mais do que pelo mercado de trabalho, eu temo um retrocesso civilizatório e intelectual”. O autor aponta que a IA não consegue replicar a complexidade da expressão humana, ainda que suas imitações estejam se tornando cada vez mais sofisticadas.
Em entrevista à Agência Brasil, Sérgio Rodrigues esclareceu suas ideias sobre a humanização da escrita e suas preocupações a respeito das consequências do uso excessivo da IA. O autor menciona que a necessidade de um manual surgiu da urgência em preservar a autonomia na prática da escrita, destacando que a criatividade é o que distingue a produção humana da gerada por máquinas. De acordo com ele, a educação também enfrenta um desafio significativo, já que o uso indiscriminado da IA nas escolas pode levar os alunos a subestimar suas próprias habilidades de escrita.
Rodrigues insiste que a IA, se não for controlada, pode resultar em uma geração que desaprende a escrever, o que teria impactos devastadores nas capacidades de comunicação e expressão da sociedade. A AI não apenas ameaça profissões, como eleva o risco de um retrocesso no aprendizado das habilidades de escrita diárias, que são cruciais não só no ambiente escolar, mas também na vida cotidiana.
A seguir, confira a entrevista completa com Sérgio Rodrigues.
Entrevista com Sérgio Rodrigues
Agência Brasil – Como surgiu a ideia de tratar sobre a humanização da escrita?
Sérgio Rodrigues – A ideia era fazer um manual, um guia que ajudasse as pessoas que estão começando, principalmente na escrita da ficção. Sou jornalista, mas sou romancista e contista. Essa era a parte que me interessava explorar. Eu tinha um blog chamado Todoprosa, que ficou no ar entre 2006 e 2016. Algumas das ideias desse livro nasceram lá. Eu aprofundei e retrabalhei. Quando apareceu essa inteligência artificial generativa, causou uma urgência maior. O livro ganhou também um foco diferente. A criatividade é o contrário do que a inteligência artificial faz.
Agência Brasil – Isso gera consequências imediatas no mercado de trabalho.
Sérgio Rodrigues – Algumas áreas estão muito ameaçadas em termos trabalhistas. A IA consegue executar tarefas que eram exclusivas dos seres humanos com uma velocidade incomparável, com custo muito mais baixo. O ser humano é caro.
Agência Brasil – Quais as maiores ameaças?
Sérgio Rodrigues – A maior ameaça que estou vendo é o ser humano, como espécie, desaprender a escrever. É um risco. Você pode terceirizar tudo, todos os textos. No momento em que você terceiriza e não usa mais essa medida, se esquece. A gente é assim.
Agência Brasil – Esse escrever que você trata tem relação com todas as fases da vida, certo? A redação da escola, por exemplo.
Sérgio Rodrigues – A escola tem um problema sério. Se ela não tomar cuidado, todos os alunos vão passar a entregar trabalhos feitos por inteligência artificial. Se a escola não criar um ambiente em que isso seja severamente controlado, a própria habilidade da escrita não vai ser desenvolvida por aquelas crianças mais.
Agência Brasil – De forma geral, a inteligência artificial é um passo à frente na robotização da escrita.
Sérgio Rodrigues – A IA é uma ferramenta que a gente inventou. Mas a gente já vinha nesse caminho. O nosso espírito crítico já vinha definhando. A escola não vinha dando conta.
Agência Brasil – Como convencer os mais jovens a escrever?
Sérgio Rodrigues – Esse livro é uma tentativa de abrir o olho das pessoas. A escola vai ter que se repensar a fim de criar espaços seguros para o pensamento e a escrita. A Finlândia, por exemplo, levou computadores para dentro da sala de aula. Agora o país baniu todos os computadores.
Agência Brasil – Como a falta de leitura impacta na escrita?
Sérgio Rodrigues – Tem impacto no interesse de leitura. Um resumo não é o mesmo que ler o livro. A experiência de leitura de literatura é vertical. É preciso mergulhar naquelas palavras.
Agência Brasil – Além da escola, qual o papel das famílias na questão?
Sérgio Rodrigues – É preciso que a família leia e também valorize isso. Espero que não seja tarde demais. A IA pode ser uma ferramenta, mas não pode ser a mestre ou dona da pessoa.
Agência Brasil – O que gestores podem fazer em relação a políticas públicas?
Sérgio Rodrigues – O desafio de política pública hoje no mundo da IA é a regulamentação, onde as big techs estão determinadas a não deixar que qualquer tipo de regulamentação seja feita.
Inteligência artificial ameaça aprendizado da escrita, alerta autor
Fonte: Agencia Brasil.
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