Ilha de Gorée: Patrimônio da Humanidade e Memorial da Escravidão
A Ilha de Gorée, situada a cerca de 3 quilômetros do Porto de Dacar, no Senegal, é um dos principais destinos turísticos do país e um importante marco histórico relacionado à escravidão. Desde 1978, a ilha é classificada como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, sendo um local que preserva a memória do sofrimento de milhões de africanos traficados para as Américas entre os séculos 15 e 19. Com uma área de apenas 17 hectares, Gorée é um lugar de profunda resonância emocional, atraindo visitantes não apenas pela sua beleza natural, mas também pelo seu legado histórico. A ilha foi um entreposto crucial utilizado por colonizadores europeus — entre eles os portugueses, holandeses, ingleses e franceses — para o tráfico de escravizados, que eram forçados a deixar suas terras rumo a um futuro incerto nas Américas.
Ao chegar, visitantes encontram Fama Sylla, uma vendedora local que, com um sorriso acolhedor, oferece bijuterias e outros itens típicos. “O turismo é muito importante aqui porque vivemos disso”, afirma Fama, ressaltando a dependência econômica da comunidade em relação às dezenas de milhares de turistas que acorrem à ilha anualmente, especialmente à Casa dos Escravos, onde os africanos eram mantidos aprisionados antes de seguirem para a expressiva “Porta do Não Retorno”. Este local se tornou um centro de memória e reflexão sobre a história trágica da escravização.
O censo de 2023 da Agência Nacional de Estatística e Demografia (ANSD) revela que Gorée abriga cerca de 1.700 moradores, que dependem predominantemente do turismo e da pesca para sua subsistência. Durante a época de maior movimento, como o último mês de abril — quando a ONU reconheceu a escravidão africana como um dos crimes mais graves contra a humanidade — o número de visitantes cresce, proporcionando pequenas rendas para a população local.
A hospitalidade é uma característica marcante dos moradores. Vendedores como Chaua Sall e Aminata Fall praticam saudações em vários idiomas, buscando interagir com os turistas que vêm de lugares tão diversos quanto Brasil e Itália. “Aqui você recebe turistas de vários lugares. Pessoas do mundo todo vêm para a Ilha de Gorée”, comenta Chaua, que vende esculturas de madeira representativas da rica fauna africana.
Gorée não é apenas um destino turístico; é uma sala de aula viva. Estudantes de Dacar frequentemente visitam a ilha, aprendendo sobre a história da escravidão, enquanto guias como Mamadou Bailo Diallo partilham relatos marcantes, incluindo a visita do líder sul-africano Nelson Mandela, que se emocionou ao testemunhar a dor que o lugar representa. Ao lado da Casa dos Escravos, uma homenagem a Mandela recorda sua passagem por Gorée.
As expressões artísticas também prosperam na ilha. Artistas como Cheikh Sow utilizam técnicas tradicionais para criar obras que retratam a cultura africana, ao mesmo tempo em que buscam gerar renda para suas famílias. “Prefiri estudar na escola de belas-artes e, assim, consigo ganhar a vida”, explica Cheikh, que se tornou artista para apoiar sua família após a dificuldade de seus pais.
Gorée serve como um elo entre o passado e o presente, oferecendo uma reflexão sobre o legado da escravidão, ao mesmo tempo que apresenta uma comunidade vibrante que vive do turismo e da cultura. As vozes alegres dos jovens alunos que visitam a ilha hoje ecoam em contraste ao sofrimento que o lugar testemunhou ao longo da história, fazendo de Gorée um espaço de aprendizado e diálogo sobre a dignidade humana.
As imagens que ilustram esta reportagem são de Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil.
Ilha africana “memória da escravidão” conta com turismo para ter renda
Fonte: Agencia Brasil.
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